A inteligência artificial está aprendendo... e os livros estão sendo descartados
É difícil não enxergar uma contradição nessa prática. Grandes empresas de inteligência artificial estão comprando livros antigos para digitalizar seu conteúdo e treinar seus modelos. Em muitos casos, depois que o conhecimento é extraído, os exemplares físicos são simplesmente descartados.
Os livros passam a ser tratados como matéria-prima descartável. O que levou décadas ou até séculos para ser preservado é reduzido a um arquivo digital. O conteúdo continua existindo, mas o objeto que carrega parte da nossa história desaparece.
Cada livro antigo possui um valor que vai muito além das palavras impressas. Sua edição, encadernação, marcas do tempo, anotações e contexto histórico também contam uma história. Quando esses exemplares são destruídos, perde-se uma parte do patrimônio cultural que jamais poderá ser recriada.
Muito antes da inteligência artificial existir, escritores já refletiam sobre a importância de preservar o conhecimento. Em "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, uma sociedade destrói livros para apagar ideias e memórias. Em "1984", de George Orwell, o controle da informação e dos registros históricos se torna uma forma de controlar o futuro. Já em "O Nome da Rosa", de Umberto Eco, uma biblioteca representa o valor inestimável da preservação do conhecimento acumulado pela humanidade.
É importante deixar claro que essa comparação é uma analogia, não uma equivalência. Digitalizar um livro para treinar uma IA e depois descartar o exemplar físico não é o mesmo que censurar, proibir ou queimar livros, como acontece nessas obras. O conhecimento pode continuar preservado em formato digital. A preocupação é outra: quando os exemplares físicos desaparecem, perde-se parte do patrimônio cultural e histórico que eles representam.
Além disso, existe um risco que merece reflexão. Quanto mais o conhecimento fica concentrado apenas em formatos digitais controlados por poucas grandes empresas de tecnologia, maior é nossa dependência delas. Não sabemos quais serão suas decisões no futuro, nem quais conteúdos continuarão acessíveis daqui a décadas.
Esse risco não é apenas teórico. Algo semelhante já acontece com filmes e séries. Obras que estavam disponíveis em plataformas de streaming deixam de fazer parte do catálogo por questões de licenciamento ou decisões empresariais. Em muitos casos, elas simplesmente desaparecem do acesso legal e passam a ser encontradas apenas em acervos particulares, bibliotecas, colecionadores ou até mesmo em sites de pirataria. Quando o acesso depende exclusivamente de uma plataforma, parte da nossa memória cultural também passa a depender dela.
Os livros físicos oferecem uma proteção natural contra esse tipo de concentração. Um mesmo título pode existir em milhares de bibliotecas, sebos, universidades e coleções particulares espalhadas pelo mundo. Mesmo que uma editora deixe de imprimir uma obra, ela continua existindo em diferentes lugares. Já um arquivo digital pode depender de servidores, licenças, contratos e da decisão de quem controla esse acervo.
É claro que treinar inteligências artificiais pode trazer enormes benefícios para a sociedade. O problema não é a digitalização nem o avanço tecnológico, mas a ideia de que o livro físico se torna descartável depois que seus dados foram copiados. Tecnologia e preservação não precisam ser inimigas.
O progresso não pode ser medido apenas pela capacidade de criar máquinas mais inteligentes. Ele também deve ser medido pela capacidade de respeitar e preservar o conhecimento que permitiu que essas máquinas existissem. Se a IA aprende com os livros do passado, o mínimo que podemos fazer é garantir que esse passado continue existindo para as próximas gerações não apenas como um conjunto de dados armazenados em servidores, mas também como parte viva da nossa cultura, da nossa memória e da nossa identidade.
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